Longa-reportagem · História do arcade
Do salão de máquinas ao browser: a história do arcade
Para perceber porque é que um jogo simples como o Tomb of the Mask nos prende durante horas, é preciso recuar mais de quarenta anos, até um lugar barulhento, cheio de luzes intermitentes e do som metálico de moedas a cair. O salão de máquinas foi o berço de uma forma de entretenimento que ainda hoje, sob outra roupagem, vive no separador do seu navegador.
Os anos da moeda e do recorde
O arcade moderno nasce no início dos anos setenta. Em 1972, o Pong mostrou que um jogo eletrónico podia ser comercial e viciante ao mesmo tempo. Mas foi a segunda metade da década, com o Space Invaders (1978) e, sobretudo, com o Pac-Man (1980), que o fenómeno explodiu. Os salões encheram-se de gente disposta a gastar moeda atrás de moeda por mais uma tentativa.
Estes jogos partilhavam uma filosofia que viria a definir o género: regras simples, dificuldade que aumentava sem parar e, no centro de tudo, uma tabela de pontuações. Não havia história para completar nem final para alcançar. Havia um número a bater — o seu, ou o do próximo jogador. Essa busca pela melhor marca era o verdadeiro motor, e continua a sê-lo.
O arcade clássico não tinha narrativa nem final. Tinha um número a bater. Esse impulso atravessou cinco décadas praticamente intacto.A pontuação como motor
A migração para casa
Ao longo dos anos oitenta e noventa, as consolas e os computadores domésticos trouxeram o arcade para a sala de estar. As conversões nem sempre eram perfeitas, mas o espírito mantinha-se. Surgiram novos géneros — plataformas, corridas, jogos de luta — e o som do salão de máquinas começou a esmorecer à medida que o jogo se tornava uma atividade caseira.
Foi também nesta época que se consolidou uma ideia que ainda hoje guia o bom desenho de jogos: fácil de aprender, difícil de dominar. Um título arcade tinha de ser compreensível em segundos, para conquistar quem passava, mas suficientemente profundo para reter quem ficava. Pense nisto da próxima vez que jogar o Knife Hit ou o Stack Ball: são jogos que se explicam numa frase e que, ainda assim, nos desafiam ronda após ronda.
A internet muda o suporte, não a alma
Com a chegada da web, o jogo eletrónico ganhou um novo palco. As primeiras experiências em Flash, no início dos anos 2000, democratizaram a criação e a distribuição: qualquer pessoa com uma ideia e algum talento podia publicar um jogo que o mundo inteiro jogava no navegador. Portais inteiros nasceram à volta desta promessa de pegar e jogar, sem instalar nada.
Quando o Flash foi descontinuado, muitos temeram o fim dos jogos de browser. Aconteceu o contrário. A tecnologia HTML5 — aberta, padronizada e suportada por todos os navegadores modernos — pegou no testemunho e elevou-o. Os jogos passaram a correr de forma nativa, sem extensões, em qualquer dispositivo. O Drift Hunters, com a sua física de condução detalhada, ou o Smash Karts, com combates multijogador em tempo real, seriam impensáveis na era do Flash. Hoje, correm num separador.
2015: o ano em que tudo se ligou
Há um momento que merece destaque próprio. Em 2015, um jovem programador lançou o Agar.io, um jogo em que cada pessoa controlava uma célula que crescia ao absorver as mais pequenas. A simplicidade era enganadora: ao colocar centenas de jogadores na mesma arena, sem instalação e sem conta, o jogo inaugurou um género inteiro, batizado pelo sufixo do seu endereço — os jogos ".io".
O sucesso foi imediato e contagiante. De repente, o browser não era apenas um sítio para jogos solitários; era um espaço social, competitivo, partilhado em tempo real por pessoas de todo o mundo. O fenómeno .io provou definitivamente que a tecnologia web estava à altura de experiências multijogador ricas, e abriu caminho a tudo o que se seguiu.
Porque é que isto importa hoje
Conhecer esta história não é um exercício de nostalgia. Ajuda a jogar melhor e a apreciar mais. Quando entende que o Doodle Jump ou o Color Switch herdaram a lógica da pontuação infinita do Pac-Man, percebe porque é que são tão difíceis de largar. Quando reconhece no Tomb of the Mask a estética pixelizada dos anos oitenta, vê que se trata de uma homenagem deliberada, e não de uma limitação.
Os jogos de browser são, no fundo, os herdeiros diretos do salão de máquinas: a mesma promessa de pegar e jogar, a mesma busca pelo recorde, a mesma democracia do "qualquer pessoa pode tentar". A diferença é que já não é preciso uma deslocação nem um bolso cheio de moedas. Basta um clique. E é por isso que, nesta revista, tratamos estes jogos com a seriedade que a sua história merece.
Se quiser pôr esta herança à prova, abra o nosso catálogo e escolha um clássico moderno. Ou comece pelo guia para iniciantes, se for a sua primeira vez. O salão de máquinas está aberto — e a entrada é gratuita.
Este artigo faz parte da secção de guias da Meridvelo. Encontre mais leituras na página do blog ou explore o catálogo de jogos.